Existe um tipo raro de filme de terror que não precisa de jump scares para deixar o espectador sem dormir. Obsessão, o longa-metragem de estreia do diretor Curry Barker, é exatamente esse tipo de obra — e sua chegada aos cinemas brasileiros neste mês de maio vem acompanhada de um barulho que não para de crescer.
Com orçamento de apenas US$ 750 mil e um elenco de nomes ainda em ascensão, o filme arrecadou US$ 17,2 milhões apenas no final de semana de estreia nos Estados Unidos, consolidando-se como um dos fenômenos independentes do ano. No Rotten Tomatoes, a aprovação chegou a 95%. No Metacritic, entrou entre os 25 melhores filmes de 2026. Números que fariam qualquer grande estúdio corar.
A premissa: simples e devastadora
Bear (Michael Johnston) é daquele tipo de rapaz que todo mundo conhece: tímido, romântico incurável, incapaz de confessar seus sentimentos à amiga Nikki (Inde Navarrette), por quem é apaixonado há anos. Quando encontra um objeto misterioso chamado One Wish Willow — um brinquedo capaz de realizar um único desejo —, ele pede o que qualquer apaixonado desesperado pediria: que Nikki o ame acima de qualquer coisa no mundo.
O pedido é atendido. E é aí que o filme começa de verdade.
A partir desse ponto, o que poderia ser uma fantasia romântica convencional se transforma em algo muito mais perturbador: uma exploração visceral sobre posse, consentimento e a perda de identidade que o amor manipulado pode causar. O "sim" que Bear tanto queria vira um pesadelo sufocante — para Nikki, para o espectador e, ironicamente, para o próprio Bear.
O que a crítica destacou — e por quê ela tem razão
O Cinema com Rapadura identificou com precisão o maior acerto do filme: a recusa de Barker em suavizar sua própria estranheza. Conforme a narrativa escala para situações cada vez mais absurdas, o diretor entende que conter o exagero só enfraqueceria a obra. Há uma tensão crescente que não depende de eventos extraordinários, mas de mudanças sutis — e depois nem tão sutis — no comportamento de Nikki.
E aqui mora um dos pontos mais inteligentes do roteiro: a verdadeira tragédia da história não pertence ao protagonista que fez o desejo, mas à jovem que foi alvo dele. Nikki vai perdendo o controle sobre seus próprios sentimentos e ações, e o filme nunca deixa o espectador esquecer que isso não é romance — é violência. Uma violência emocional disfarçada de fantasia.
O AdoroCinema destacou justamente essa dimensão contemporânea do filme: Obsessão lida com temas urgentes como consentimento e codependência em relacionamentos, mas sem o tom panfletário que poderia torná-lo didático. O terror funciona como metáfora, e a metáfora funciona como terror.
Curry Barker e o elenco: revelações a guardar
Barker consegue sustentar uma premissa relativamente simples por quase duas horas sem deixar a narrativa estagnar. É um feito e tanto para um cineasta em sua estreia no longa-metragem. Sua trajetória já chama atenção: Obsessão foi vendido para a Focus Features após uma disputa intensa entre estúdios no Festival de Toronto, e o diretor já tem um novo projeto com a empresa encaminhado.
Mas é Inde Navarrette quem rouba a cena — e talvez o filme inteiro. Sua performance como Nikki é o coração pulsante (e perturbado) da obra. É ela quem carrega o peso mais difícil: dar vida a uma personagem que vai sendo esvaziada de si mesma, cena a cena, olhar a olhar. O tipo de trabalho que fica na memória muito depois dos créditos finais.
Michael Johnston, por sua vez, tem a missão ingrata de fazer o espectador torcer contra o protagonista — ou pelo menos desconfortá-lo o suficiente para que nenhuma empatia fácil seja possível. Bear não é um vilão cartunesco. É pior: é alguém reconhecível, cujos erros têm consequências que ele parece incapaz de dimensionar.
Terror que não vai embora
O que define Obsessão como um filme acima da média do gênero é essa qualidade de persistência. O horror aqui não é de susto — é de acúmulo. Uma atmosfera que vai se tornando cada vez mais sufocante, construída com paciência e precisão por um diretor que claramente sabe onde quer chegar.
E quando o filme chega lá, não oferece catarse fácil. O desconforto não se resolve com o fim da sessão. É o tipo de experiência que você carrega na cabeça no caminho de volta para casa, revivendo cenas, questionando escolhas, percebendo camadas que não tinha notado.
Para um terror de estreia com menos de um milhão de dólares de orçamento, isso é quase um milagre.
Obsessão está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Direção: Curry Barker | Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson | Duração: 1h49min | Distribuição: Universal Pictures
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