Poucas cinebiografias chegaram aos cinemas carregando tanto peso quanto Michael, o retrato da vida de Michael Jackson que estreou no Brasil em 23 de abril de 2026. A produção foi aguardada por anos, adiada pela greve do SAG-AFTRA, refilmada em parte por questões jurídicas, e chegou às salas com uma expectativa que poucos filmes conseguem gerar.
O resultado? Uma das maiores contradições do ano no cinema: R$ 1,2 bilhão de bilheteria global, público entusiasmado, nota 4,7 no AdoroCinema — e apenas 27% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes.
É o caso mais emblemático de 2026 de um filme que o público ama e a crítica detestou. E entender por que isso aconteceu diz muito sobre o que o filme é, o que ele evitou ser, e o que pode vir a seguir.
A sinopse: de Gary, Indiana ao mundo
É uma narrativa de formação e emancipação: o menino supertalentoso moldado pelo controle rígido do pai Joe Jackson (Colman Domingo), a pressão de ser o centro de um grupo familiar desde os 5 anos de idade, e a busca pelo reconhecimento artístico próprio que foi, ao mesmo tempo, sua libertação e o início de um isolamento que marcaria o restante de sua vida.
O filme inclui mais de 30 músicas do catálogo de Michael Jackson — dos hits do Jackson 5 às danças do moonwalk que mudaram a cultura pop — e reconstrói shows icônicos com uma fidelidade visual que é, segundo consenso do público, um dos pontos mais fortes da produção.
Jaafar Jackson: a escolha que define o filme
A decisão de escalar Jaafar Jackson — sobrinho biológico de Michael, filho de Jermaine Jackson — no papel principal é o elemento mais discutido de toda a produção. E de forma completamente oposta entre público e crítica.
Para os fãs, foi um acerto absoluto. Jaafar possui uma semelhança física impressionante com o tio, reproduz os trejeitos, a voz e os movimentos com uma naturalidade que vai além de imitação — é uma identificação genuína que vem de quem cresceu dentro daquele universo. Sua estreia no cinema foi celebrada por fãs em todo o mundo.
Para a crítica especializada, a escolha foi sintomática de um problema maior: ao colocar um membro da família no papel principal, o filme estabeleceu desde o início o seu ponto de vista — o da família — higiênico, amoroso e distante de qualquer controvérsia.
O elefante na sala: as acusações que o filme não abordou
Aqui está a questão central que explica a divisão entre público e crítica, e que marcou toda a produção do filme desde os bastidores.
Originalmente, o roteiro de John Logan incluía referências às acusações de abuso sexual infantil que pesaram sobre Michael Jackson ao longo da carreira — em especial as de 1993. Mas durante a produção, foi descoberta uma cláusula num acordo judicial que impediu a utilização de determinado material. O resultado: todas as referências às acusações foram removidas do roteiro, o terceiro ato foi revisado e refilmagens foram realizadas em junho de 2025, meses antes do lançamento.
A crítica especializada foi impiedosa com essa ausência. A Variety, o New York Times e a Rolling Stone apontaram problemas estruturais, narrativa superficial e a ausência de temas centrais da vida do cantor. O consenso crítico no Rotten Tomatoes define o filme como "luxuosamente convencional" — visualmente impressionante, musicalmente emocionante, mas fundamentalmente vazio no que toca ao retrato humano do artista.
A avaliação da Exame foi direta: "o filme retrata o ícone, mas evita o homem."
O que a crítica diz — e o que o público respondeu
| Crítica especializada | Público | |
|---|---|---|
| Rotten Tomatoes | 27% de aprovação | — |
| Metacritic | 38 pontos | — |
| AdoroCinema | 3,0 (crítica) | 4,7 (usuários) |
| Bilheteria global | — | R$ 1,2 bilhão |
O abismo entre as notas da crítica e a receptividade do público é um dos maiores registrados para uma cinebiografia em anos recentes.
O que explica essa divisão? O filme que a crítica queria ver era um retrato complexo e corajoso de um dos artistas mais problemáticos e geniais do século 20. O filme que o público foi ver era uma celebração emocionante da música e da presença de um dos maiores entertainers da história — e nisso, segundo os próprios espectadores, Michael entrega plenamente.
Como escreveu um usuário no AdoroCinema: "Literalmente um espetáculo. Experiência audiovisual. Uma viagem nostálgica. Não confiem na crítica. 5 estrelas com louvor!"
Os bastidores: uma produção marcada por turbulências
O desenvolvimento começou em novembro de 2019, quando o produtor Graham King — o mesmo de Bohemian Rhapsody — garantiu os direitos para produzir o filme. A Lionsgate anunciou o projeto em fevereiro de 2022. Em janeiro de 2023, Antoine Fuqua foi confirmado na direção e Jaafar foi escalado para o papel principal.
As filmagens principais aconteceram entre janeiro e maio de 2024 — mas a greve do SAG-AFTRA em 2023 já havia causado atrasos significativos. Depois veio a revisão do roteiro e as refilmagens em junho de 2025. O filme chegou aos cinemas com quase dois anos de atraso em relação à data originalmente planejada.
O trailer lançado em novembro de 2025 tornou-se o mais visto para qualquer filme biográfico ou de concerto musical da história — e o maior lançamento de trailer na história da Lionsgate.
Um detalhe dos bastidores que chamou atenção: Antoine Fuqua revelou que o espólio de Michael Jackson não se atentou a detalhes do roteiro, o que resultou numa revisão custosa — cerca de 15 milhões de dólares — de cenas que precisaram ser refeitas. O diretor comparou a situação a outras produções problemáticas que ele viveu ao longo da carreira.
O que Michael Jackson sabia sobre cinema — e o que o filme não pôde mostrar
Uma das notas de bastidores mais curiosas: Michael Jackson estreou nos cinemas ainda nos anos 1970 — como participante em produções do período — mas o filme foi obrigado a cortar todas as referências a essa fase por questões de direitos.
Há também o registro de que Jackson recusou um papel num grande sucesso de ficção científica dos anos 2000 por uma razão muito específica: não queria interpretar um alien. O artista tinha uma visão muito precisa de como queria ser visto pelo público — e esse controle sobre a imagem é, ironicamente, o mesmo que define e limita o filme sobre ele.
O futuro: Michael 2 já está em desenvolvimento
O longa encerra sua narrativa em 1988 — propositalmente. Uma continuação, Michael 2, já está sendo discutida, e segundo fontes ouvidas pela Forbes, a sequência deverá abordar os capítulos mais delicados da trajetória do cantor: as acusações de Jordan Chandler em 1993, o show histórico do intervalo do Super Bowl de 1993 e as grandes turnês internacionais que consolidaram Jackson como fenômeno global.
A produção da sequência depende da agenda de Antoine Fuqua e de negociações jurídicas envolvendo o roteiro. Caso o cronograma avance sem novos atrasos, as filmagens podem começar entre o fim de 2026 e o início de 2027.
É uma ironia poderosa: o filme que evitou as controvérsias promete, em sua continuação, enfrentá-las diretamente.
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Direção | Antoine Fuqua |
| Roteiro | John Logan |
| Produtor | Graham King (GK Films) |
| Distribuição (Brasil) | Universal Pictures |
| Estreia no Brasil | 23 de abril de 2026 |
| Duração | 2h 08min |
| Gênero | Biopic, Drama, Musical |
| Classificação | 12 anos |
| Elenco principal | Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller |
Vale a pena assistir?
Depende do que você está buscando. Se quiser um retrato completo, complexo e honesto de Michael Jackson — com todos os seus paradoxos, contradições e a sombra das acusações que marcaram sua vida — o filme não vai entregar isso. A crítica tem razão nesse ponto.
Se quiser uma celebração emocionante da música e da presença de palco de um dos maiores artistas que o mundo já viu — com performances icônicas recriadas com beleza visual, 30 músicas inesquecíveis e a atuação impressionante de Jaafar Jackson — você vai sair do cinema feliz.
O Rei do Pop continua dividindo o mundo, mesmo quando é contado por quem mais o ama.
Você já assistiu ao filme? Acha que a crítica foi justa ou o público tem razão em ignorá-la? E o que você espera de um eventual Michael 2? Conta nos comentários!
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