Em 2019, alguém postou anonimamente no 4chan uma foto comum — o interior vazio de um escritório com carpete amarelado, iluminação fluorescente zumbindo e corredores que se repetiam para sempre, sem janelas, sem saídas, sem nenhum ser humano à vista. A legenda dizia: "Se você não tiver cuidado e acabar atravessando a realidade nos lugares errados, vai parar nos Backrooms."
Sete anos depois, essa imagem anônima chega aos cinemas brasileiros no dia 28 de maio de 2026, produzida pelo estúdio A24 — responsável por Hereditário, Midsommar e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo — e dirigida por um cineasta de 20 anos que aprendeu a fazer filmes durante a pandemia usando um software gratuito e uma câmera doméstica.
É uma das histórias mais improváveis e fascinantes do cinema recente. E o filme parece estar à altura dela.
O que são os Backrooms — e de onde veio a lenda
Você está nos Backrooms. E a pior parte: talvez não exista saída.
A imagem original do 4chan rapidamente se transformou numa das creepypastas — lendas urbanas digitais — mais elaboradas da história da internet. A comunidade online começou a criar coletivamente: diferentes "níveis" do labirinto, cada um com suas próprias regras de sobrevivência, criaturas, perigos e atmosferas. Organizações secretas que investigam o fenômeno. Portais entre realidades. Eventos paranormais registrados em filmagens amadoras.
Aquilo que começou como uma única foto perturbadora virou uma mitologia colaborativa inteira — construída por milhares de usuários anônimos que nunca se encontraram.
E depois chegou Kane Parsons.
Kane Parsons: de 16 anos, um curta viral e um contrato com a A24
Em janeiro de 2022, um adolescente de 16 anos do interior dos Estados Unidos publicou no YouTube, no canal Kane Pixels, um curta-metragem de 9 minutos intitulado The Backrooms (Found Footage). Ele havia aprendido sozinho a usar o software Blender e o Adobe After Effects durante a pandemia. Sem orçamento, sem equipe, sem estúdio — só um jovem autodidata com uma câmera e uma ideia aterrorizante.
O vídeo acumulou mais de 78 milhões de visualizações. E depois 200 milhões quando somados todos os episódios da série que se seguiu.
O curta original usava o estilo found footage — como se fosse filmagem real encontrada — para mostrar um jovem entrando acidentalmente nos Backrooms enquanto gravava com uma câmera VHS. A câmera registra tudo do ponto de vista do protagonista, preso num labirinto infinito de salas vazias. Sem jumpscares baratos. Sem monstros caricatos. Só o ambiente — a luz fluorescente, o carpete molhado, o silêncio que pesa — como fonte de terror.
A fotografia suja, o som ambiente opressivo e um ritmo lento que faz o espectador sentir o peso do vazio chamaram atenção de algo incomum: o estúdio A24.
Em fevereiro de 2023, a produtora anunciou o longa-metragem — e confirmou Parsons na direção. Um comunicado de imprensa na época brincou que as filmagens começariam "apenas nas férias de verão do diretor" — ele ainda estava no ensino médio. Kane Parsons tornou-se o diretor mais jovem da história da A24 e um dos mais jovens a liderar um projeto de estúdio em toda Hollywood.
Hoje tem 20 anos. E o filme estreia na quinta-feira.
A sinopse: quando o labirinto invade o mundo real
Backrooms: Um Não-Lugar acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis que faz uma descoberta perturbadora no porão de sua loja: uma passagem para os Backrooms, um labirinto de corredores intermináveis que parece existir numa camada paralela da realidade.
Intrigado, Clark convence Kat (Lukita Maxwell), sua funcionária, e Bobb (Finn Bennett), namorado dela, a explorar a extensão do labirinto com ele. Mas quando Clark desaparece no interior dos corredores, sua terapeuta Dr. Mary Kline (Renate Reinsve) parte em sua busca — e também acaba presa no labirinto.
A narrativa alterna entre os dois pontos de vista: Clark, cada vez mais fundo nos Backrooms, e Mary, tentando encontrá-lo antes de se perder também. É uma estrutura que amplifica a claustrofobia característica do universo original — e que, segundo a crítica especializada, Parsons executa com uma eficiência que poucos diretores estreantes conseguiriam.
Curiosamente, a imagem que deu origem a toda a lenda foi identificada em 2024 como o interior de uma loja de móveis em reforma nos Estados Unidos. O mesmo tipo de loja que Clark, o protagonista do filme, administra. Uma coincidência que o roteirista Roberto Patino incorporou com precisão cirúrgica.
Os bastidores: quando a equipe se perdeu no set
Para criar os corredores dos Backrooms, a produção construiu mais de 2.700 metros quadrados de cenários físicos reais — e durante as filmagens, alguns membros da equipe realmente se perderam no labirinto.
Não é metáfora. O set era tão extenso e tão propositalmente desorientador que funcionários de produção perderam a referência espacial e precisaram ser guiados de volta.
É o tipo de detalhe de bastidores que diz tudo sobre o compromisso de Parsons com a imersão — e sobre a diferença entre um diretor que quer assustar e um que quer fazer o espectador sentir o horror.
O elenco: apostas cirúrgicas
Chiwetel Ejiofor como Clark
Indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão, Ejiofor traz peso dramático e credibilidade a um personagem que precisaria de ambos: um homem comum que atravessa algo para o qual nenhum treinamento ou inteligência o preparou. A escalação é um acerto de casting que eleva o filme acima da média do gênero.
Renate Reinsve como Dr. Mary Kline
A atriz norueguesa ganhou o mundo após A Pior Pessoa do Mundo (2021) e o prêmio de Melhor Atriz em Cannes naquele ano. Escolhê-la para a terapeuta que mergulha nos Backrooms é um sinal claro de que a A24 não estava fazendo um filme de terror comum — estava fazendo um filme de terror com ambições.
Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell
O elenco de apoio completa um conjunto equilibrado que permite ao filme funcionar tanto como thriller psicológico quanto como experiência de horror atmosférico.
A24 e o terror inteligente: por que essa parceria faz sentido
A A24 tem um histórico específico com o gênero terror: ela não produz filmes de susto — produz filmes de atmosfera. Hereditário era sobre luto e trauma familiar. Midsommar era sobre relacionamentos tóxicos e rituais de passagem. A Bruxa era sobre puritanismo e medo do desconhecido.
Backrooms se encaixa perfeitamente nessa linhagem: o horror não vem de uma criatura que aparece — vem do espaço em si. Da repetição. Do silêncio. Do labirinto sem saída que existe exatamente onde você não esperava encontrá-lo.
O trailer acumulou mais de 1 milhão de curtidas no Instagram em apenas um dia — algo que raramente acontece com trailers de filmes, mesmo os mais aguardados.
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título original | Backrooms |
| Direção | Kane Parsons |
| Roteiro | Roberto Patino |
| Produção | A24, Atomic Monster (James Wan) |
| Distribuição (Brasil) | Imagem Filmes |
| Estreia no Brasil | 28 de maio de 2026 |
| Duração | 1h 45min |
| Gênero | Terror, Ficção Científica |
| Classificação | 16 anos |
| Elenco principal | Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass |
Vale a pena assistir?
Se você conhece os Backrooms — seja pelo post original do 4chan, pelos curtas do Kane Pixels ou pela mitologia construída coletivamente pela internet — o filme é a realização de algo que a comunidade esperava desde 2022. Parsons manteve a essência que tornou seus vídeos aterrorizantes e a ampliou com recursos que um adolescente com um laptop nunca poderia ter.
Se você nunca ouviu falar dos Backrooms, não importa. O filme funciona como obra autônoma — e a experiência de entrar nos corredores sem saber nada sobre o universo pode ser ainda mais eficaz.
Em ambos os casos: não vá sozinho.
Você conhecia os Backrooms antes do filme? E o que acha de ver um diretor de 20 anos comandando um projeto da A24? Conta nos comentários — e se for assistir essa semana, volta aqui para contar o que achou!
