Existe um tipo específico de ficção científica que Hollywood raramente tem coragem de fazer: aquele em que a ciência não é cenário — é protagonista. Onde as equações importam, onde a biologia tem peso dramático, onde o espectador precisa pensar junto com o herói para entender o que está em jogo. É caro de fazer, difícil de vender, e quando dá errado, dá muito errado.
Quando dá certo, vira fenômeno.
Devoradores de Estrelas — título brasileiro de Project Hail Mary, lançado em 20 de março — é esse tipo de filme. Com orçamento de 200 milhões de dólares, sem nenhum universo expandido por trás, sem sequela prometida, sem personagem já conhecido do público, o longa estrelado por Ryan Gosling e dirigido pela dupla Phil Lord e Christopher Miller estreou com US$ 80,6 milhões apenas nos Estados Unidos no fim de semana de abertura — o maior lançamento de 2026 até aquele momento e o maior da história da Amazon MGM Studios. No mundo inteiro, arrecadou US$ 141 milhões só na primeira semana. Até hoje, já ultrapassa US$ 617 milhões globalmente.
Para um filme original, baseado num livro de ficção científica dura, isso é quase um milagre.
De onde vem a história
Antes de falar do filme, é preciso falar do livro — porque Project Hail Mary, publicado por Andy Weir em 2021, é um dos romances de ficção científica mais aclamados da última década, e entender o que o tornou especial ajuda a entender por que a adaptação funciona tão bem.
Weir é o mesmo autor de Perdido em Marte — o livro que originou o filme com Matt Damon, em 2015 — e tem uma assinatura muito particular: seus personagens resolvem problemas reais com ciência real. Nada de tecnologia mágica ou atalhos narrativos. Quando o herói precisa sobreviver, ele calcula, testa, falha e tenta de novo. A ficção científica de Weir é, acima de tudo, uma celebração do método científico.
Project Hail Mary leva essa filosofia ao extremo. E adiciona algo que Perdido em Marte não tinha: um alien.
A sinopse: um homem, o universo, e uma amizade impossível
Ryland Grace é um professor de ciências do ensino fundamental. Não é astronauta, não é militar, não é o tipo de pessoa que você escolheria para salvar a humanidade. Mas é exatamente ele quem acorda sozinho numa nave espacial a 11,9 anos-luz da Terra, com amnésia quase total e dois corpos irreconhecíveis ao lado.
Aos poucos, enquanto recupera a memória em fragmentos, Grace descobre a situação: o Sol está morrendo. Uma criatura microscópica chamada astrofagia — um organismo que se alimenta de luz estelar — está sugando energia do nosso Sol a uma velocidade que tornará a Terra inabitável em décadas. A única estrela do universo aparentemente imune ao fenômeno fica no sistema Tau Ceti, a quase 12 anos-luz de distância.
Grace foi enviado nessa missão sozinho — um voo sem retorno — para descobrir por que Tau Ceti resiste. Sem apoio. Sem segunda chance. Com recursos limitados, cérebro inquieto e um senso de humor que não o abandona nem diante do apocalipse.
E então, quando tudo parece definido, ele encontra outra nave em órbita de Tau Ceti. E dentro dela, um alien.
Rocky — como Grace o batiza — é um Eridiano: uma criatura que parece feita de pedra, com cinco braços, incapaz de suportar oxigênio, incapaz de falar da forma que humanos entendem. E que, coincidentemente, está ali pela mesma razão: o planeta dele também está sendo devorado pelos astrofágicos.
O que começa como um encontro tenso entre espécies que nunca se viram evolui para uma das amizades mais improvávies e genuínas já colocadas numa tela. Dois seres completamente diferentes, de mundos completamente diferentes, unidos pelo mesmo problema e pela mesma determinação de resolver o impossível.
O roteiro de Drew Goddard — o mesmo que adaptou Perdido em Marte — captura a essência do livro com rara fidelidade: a ciência está toda lá, mas nunca pesa. É apresentada com o mesmo humor contagiante e a mesma curiosidade quase infantil que fazem os livros de Weir tão viciantes.
Ryan Gosling e a performance do ano
É impossível falar de Devoradores de Estrelas sem falar de Gosling — que além de protagonizar o filme também o produziu, garantindo fidelidade ao material original.
O desafio do papel é descomunal: Gosling passa a maior parte do filme sozinho. Sem parceiro humano, sem diálogo convencional, reagindo a um personagem que só existiu digitalmente durante as filmagens. A amizade com Rocky — dublado por James Ortiz, com o alien criado por seis puppeteers físicos no set — precisava parecer real para que o filme funcionasse.
E funciona. Completamente.
Gosling usa a amnésia de Grace como motor dramático: cada memória recuperada muda sua postura, seu olhar, a velocidade das suas decisões. Do homem perdido e desorientado que flopa pelo chão tentando controlar os próprios músculos na cena de abertura — hilária e perturbadora ao mesmo tempo — até o cientista determinado que entende o peso impossível da missão. É uma performance em camadas que só fica mais rica a cada revisão.
O próprio Andy Weir, ao ver Gosling no papel, disse que ficou surpreso com a profundidade do personagem: "Fiquei pensando: 'Nossa, esse personagem é bem legal. Não tinha percebido o quanto ele é especial.'"
Não é elogio fácil. Weir estava olhando para seu próprio personagem, visto através dos olhos de outro artista.
Phil Lord e Christopher Miller: a escolha improvável que fez sentido
Quando a Amazon anunciou que Lord e Miller — os diretores de The Lego Movie e produtores de Homem-Aranha no Aranhaverso — iriam dirigir uma ficção científica dura e emocional, muita gente levantou a sobrancelha.
A escolha fez todo o sentido.
Project Hail Mary não é apenas ciência. É humor. É leveza existencial num contexto de terror cósmico. É a capacidade de fazer o espectador rir e chorar na mesma cena sem que nenhuma das duas coisas pareça forçada. E isso é exatamente o que Lord e Miller fazem melhor do que qualquer dupla de diretores de Hollywood.
A direção é contida onde precisa ser — especialmente no clímax, onde optam pelo minimalismo em vez da explosão espetacular, mantendo o foco em Gosling e na decisão impossível que Grace precisa tomar. A cinematografia de Greig Fraser — o mesmo de Duna e Batman — foi pensada especificamente para IMAX, entregando simultaneamente a vastidão e a claustrofobia do espaço profundo. A trilha de Daniel Pemberton completa a experiência.
O que torna Devoradores de Estrelas especial
Há uma palavra que circula muito nas críticas e reações ao filme, e que o próprio Gosling usou para descrever o projeto durante a campanha de divulgação: hopecore.
Num momento em que boa parte do entretenimento de ficção científica aposta no pessimismo — distopias, apocalipses sem saída, horrores cósmicos — Devoradores de Estrelas vai na direção oposta. É um filme sobre cooperação. Sobre o que acontece quando dois seres completamente diferentes escolhem confiar um no outro. Sobre ciência como ferramenta de esperança, não de destruição.
Rocky já foi comparado a Baby Yoda como potencial ícone cultural — e o merchandising parece confirmar a aposta: o alien já foi transformado em colecionáveis oficiais, baldes de pipoca e peças de LEGO antes mesmo do filme sair de cartaz.
Mas o que Rocky representa vai além do bonequinho fofo. Ele é a prova de que personagens não precisam ser humanos para ser humanos. E que às vezes, no meio do espaço vazio, a coisa mais improvável do universo é também a mais necessária: uma amizade que ninguém viu vir.
Os números que falam por si
- Abertura nos EUA: US$ 80,6 milhões — maior estreia de 2026 no momento do lançamento
- Abertura global: US$ 141 milhões na primeira semana
- Bilheteria total até hoje: US$ 617 milhões
- CinemaScore: A — público altamente satisfeito
- Orçamento: US$ 200 milhões (produção) + estimados US$ 100 milhões em marketing global
Para um filme original, sem franquia, sem sequel garantido, esses números são extraordinários. É a segunda maior abertura da carreira de Gosling, superada apenas por Barbie. E a maior estreia da história da Amazon MGM Studios.
Você já assistiu? Rocky já conquistou seu coração? Conta nos comentários — e se ainda não foi ao cinema, corre: é o tipo de filme que a tela grande faz toda a diferença.
