Em março de 2025, quando Walter Salles subiu ao palco do Dolby Theatre em Los Angeles para receber o Oscar de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui, ele fez questão de deixar claro que aquela estatueta não era apenas para o filme — era para a cultura brasileira, para a literatura, para a música, para os cinco milhões de brasileiros que foram ao cinema assistir a uma história sobre resistência e democracia. Era o primeiro Oscar do Brasil em mais de 90 anos de cerimônia.
Menos de um ano depois, em janeiro de 2026, foi a vez de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura subirem ao mesmo tipo de palco — desta vez no Beverly Hilton, em Los Angeles — para receber dois Globos de Ouro por O Agente Secreto: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama. O primeiro brasileiro a levar a estatueta masculina de atuação no Globo de Ouro, Wagner Moura encerrou o discurso se dirigindo diretamente ao povo brasileiro, em português, diante do mundo inteiro.
Dois filmes. Dois anos consecutivos. Dois momentos históricos. O Brasil não está apenas participando da conversa global sobre cinema — está protagonizando ela.
Como chegamos aqui?
A ascensão recente do cinema brasileiro no circuito internacional não surgiu do nada. Ela é o resultado de décadas de formação de uma geração de cineastas, atores e profissionais técnicos de altíssimo nível — e de um investimento público que, apesar de inconsistente ao longo dos anos, voltou a crescer de forma significativa.
Em 2025, o setor audiovisual brasileiro recebeu R$ 1,41 bilhão em recursos públicos, o maior volume da série histórica da Ancine — representando um crescimento de 29% em relação a 2024 e de impressionantes 179% em relação a 2021. Atualmente, mais de 1.500 projetos audiovisuais estão em execução com apoio direto da agência, enquanto outros 3.697 estão em fase de captação.
Esse dinheiro financia não apenas os grandes filmes que chegam aos festivais internacionais, mas toda a cadeia: produção, infraestrutura, distribuição e formação de novos profissionais. É o ecossistema que permite que um diretor como Kleber Mendonça Filho faça filmes no Recife que chegam a Cannes e ao Globo de Ouro.
O caso Ainda Estou Aqui: quando um filme virou fenômeno nacional
Para entender o impacto real do momento atual, nada ilustra melhor do que os números de Ainda Estou Aqui.
O filme, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva e centrado na história de Eunice Paiva — mãe que passou décadas buscando a verdade sobre o desaparecimento do marido durante a ditadura militar —, estreou nos cinemas brasileiros em novembro de 2024. Levou 5,8 milhões de espectadores às salas e arrecadou R$ 104,7 milhões, tornando-se o décimo filme nacional mais visto da história do país.
Mas o que tornou Ainda Estou Aqui um fenômeno verdadeiramente único foi a forma como cada premiação internacional retroalimentava o interesse do público nacional. A vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro gerou uma alta de 57% no público na semana seguinte — que subiu mais 122% na sequência. A indicação ao Oscar, anunciada em janeiro de 2025, provocou nova alta de 89%. A Semana do Cinema, em fevereiro, fechou o ciclo com um salto de 174%, a segunda melhor semana de exibição desde a estreia.
Em 2025, Ainda Estou Aqui respondeu sozinho por 32% de todo o público de filmes nacionais. Sem ele, o market share do cinema brasileiro naquele período cairia de 30,1% para 22,1%. Um único filme sustentou quase um terço da presença nacional nas salas.
O Agente Secreto: a confirmação de que não foi acidente
Se houvesse alguma dúvida de que o sucesso de Ainda Estou Aqui era um caso isolado, O Agente Secreto veio dissipar de vez essa ideia.
O longa de Kleber Mendonça Filho — diretor já consagrado internacionalmente por O Som ao Redor e Bacurau — estreou no Festival de Cannes em maio de 2025, onde venceu quatro prêmios: Melhor Diretor, Melhor Ator para Wagner Moura, o FIPRESCI da competição oficial e o Prix des Cinémas d'Art et Essai. Uma colheita rara para qualquer filme, histórica para uma produção brasileira.
Ambientado em 1977, nos anos finais da ditadura militar, o thriller acompanha Marcelo — um professor universitário perseguido pelo regime que tenta reconstruir a vida no Recife sob vigilância constante. É um filme sobre medo, memória e o peso do passado sobre o presente — temas que, como Ainda Estou Aqui também provou, ressoam profundamente não apenas no Brasil, mas no mundo que assiste ao avanço de tendências autoritárias em diversas democracias.
Nos Globos de Ouro 2026, o filme fez história ao vencer Melhor Filme em Língua Não Inglesa — o primeiro prêmio dessa categoria para o Brasil em 27 anos, desde Central do Brasil, em 1999. E depois foi indicado ao Oscar 2026. Quando o diretor agradeceu, dedicou o prêmio aos jovens cineastas brasileiros.
A fórmula que não é fórmula
O que há em comum entre Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto — além do país de origem e do período histórico — é mais difícil de nomear do que parece. Não é um gênero. Não é um estilo visual. Não é um tamanho de orçamento.
É uma honestidade. Uma disposição de olhar para a história do Brasil sem retoques, sem heroísmo fácil, sem catarse rápida. Os dois filmes confrontam o espectador com algo que a ditadura militar deixou de herança no tecido social brasileiro: o trauma coletivo de um período de violência institucional que por décadas foi pouco processado, pouco nomeado, pouco cinematograficamente elaborado.
Walter Salles disse que o filme "ecoa o perigo autoritário que hoje grassa no mundo todo". Essa percepção — de que histórias brasileiras são, ao mesmo tempo, histórias universais — é o que transforma um drama sobre uma família carioca dos anos 1970 em algo que emociona plateias em Veneza, Los Angeles e Paris.
Os desafios que persistem
Seria desonesto celebrar esse momento sem falar dos limites reais que ainda existem.
Apesar do aumento expressivo no investimento e do reconhecimento internacional, o desempenho do cinema brasileiro nas salas de exibição ainda é profundamente desigual. Em 2025, apenas sete dos 203 títulos brasileiros lançados concentraram 73% de todo o público nacional. Ao mesmo tempo, 111 filmes não chegaram a mil espectadores.
O gargalo não é a produção — é a distribuição. Um filme pode ser premiado em Cannes e ter dificuldade de encontrar salas no interior do Brasil. Pode ser aclamado pela crítica e desaparecer das telonas em duas semanas por falta de apoio comercial.
O governo federal regulamentou, em dezembro de 2025, novas cotas de tela que exigem que todos os cinemas comerciais do país reservem um número mínimo de sessões para filmes brasileiros — e estabeleceu limites para que um único título nacional não monopolize toda a cota, incentivando a diversidade. É um passo importante, mas especialistas apontam que cotas de tela precisam ser acompanhadas de investimento proporcional em marketing e lançamento para que a política realmente funcione.
O que vem pela frente
O que o Brasil construiu em dois anos consecutivos é algo raro no cinema mundial: credibilidade. Quando um longa brasileiro chega a um festival agora, ele não é recebido como uma curiosidade exótica — é recebido como um possível vencedor.
Essa reputação atrai parceiros internacionais de coprodução, facilita acesso a festivais maiores e ajuda a viabilizar projetos que, sozinhos, seriam impossíveis financeiramente. É um ciclo virtuoso que, quando funciona, se retroalimenta.
E há uma geração inteira de cineastas brasileiros em formação, assistindo a Fernanda Torres no palco do Globo de Ouro e a Kleber Mendonça Filho em Cannes, entendendo que é possível — que a história do Brasil, a vida do Brasil, os rostos do Brasil, merecem e podem ocupar as maiores telas do mundo.
O Brasil não chegou tarde à conversa. Ele chegou exatamente na hora.
Você assistiu a Ainda Estou Aqui ou O Agente Secreto? Qual dos dois te impactou mais? Deixa nos comentários — e me conta qual cineasta brasileiro você mais acompanha.
